{"id":12923,"date":"2018-05-23T16:17:29","date_gmt":"2018-05-23T16:17:29","guid":{"rendered":"http:\/\/sindser.org.br\/s\/?p=12923"},"modified":"2021-09-05T08:22:30","modified_gmt":"2021-09-05T08:22:30","slug":"a-arte-de-manipular-multidoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sindser.org.br\/s\/a-arte-de-manipular-multidoes\/","title":{"rendered":"A arte de manipular multid\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>A <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/posverdad\/a\">era da p\u00f3s-verdade<\/a> \u00e9 na realidade a <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/11\/16\/internacional\/1479308638_931299.html?rel=mas\">era do engano e da mentira<\/a>, mas a novidade associada a esse neologismo consiste na populariza\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as falsas e na facilidade para fazer com que os boatos prosperem.<\/p>\n<p>A mentira dever ter uma alta porcentagem de verdade para ser mais cr\u00edvel. E ter\u00e1 ainda maior efic\u00e1cia a mentira composta totalmente por uma verdade. Parece uma contradi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9. Na sequ\u00eancia analisaremos como isso pode acontecer.<\/p>\n<h3><strong>A p\u00f3s-mentira<\/strong><\/h3>\n<p>Hoje em dia tudo \u00e9 verific\u00e1vel e, portanto, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil mentir. Mas essa dificuldade pode ser superada com dois elementos b\u00e1sicos: a insist\u00eancia na assevera\u00e7\u00e3o falsa, apesar dos desmentidos confi\u00e1veis; e a desqualifica\u00e7\u00e3o de quem a contradiz. E a isso se soma um terceiro fator: milh\u00f5es de pessoas prescindiram dos intermedi\u00e1rios de garantias (previamente desprestigiados pelos enganadores) e <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/01\/21\/opinion\/1485023813_514702.html\">n\u00e3o se informam pelos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o rigorosos<\/a>, mas diretamente nas fontes manipuladoras (p\u00e1ginas de Internet relacionadas e determinados perfis nas redes sociais). A era da p\u00f3s-mentira fica assim configurada.<\/p>\n<p>Dessa forma, milh\u00f5es de norte-americanos acreditaram em uma mentira comprovada como a afirma\u00e7\u00e3o de Donald Trump de que <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/barack_obama\/a\">Barak Obama<\/a> \u00e9 um mu\u00e7ulmano nascido no estrangeiro e milh\u00f5es de brit\u00e2nicos estavam convencidos de que, com o <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/referendum_permanencia_reino_unido_ue\/a\">Brexit<\/a>,o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade teria por semana 350 milh\u00f5es de libras (1,4 bilh\u00e3o de reais) adicionais.<\/p>\n<p>A tecnologia permite hoje manipular digitalmente qualquer documento (incluindo as imagens), e isso avaliza que se indique como suspeitos os que reagem com dados certos diante das mentiras, porque suas provas j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam valor de fato. E se acrescenta a isso a perda de parte da independ\u00eancia na imprensa com a crise econ\u00f4mica. O <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/06\/19\/cultura\/1497900552_320878.html\">n\u00famero de jornalistas foi reduzido<\/a> e ela precisou levar em considera\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 os leitores, mas tamb\u00e9m os propriet\u00e1rios e anunciantes. Em certos casos, utilizam tamb\u00e9m t\u00e9cnicas sensacionalistas para obter rea\u00e7\u00f5es na Rede, o que fez com que perdesse credibilidade.<\/p>\n<p>Com tudo isso, se chegou \u00e0 paradoxal situa\u00e7\u00e3o de que <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/12\/14\/ciencia\/1481728914_575054.html\">as pessoas j\u00e1 n\u00e3o acreditam em nada<\/a> e ao mesmo tempo s\u00e3o capazes de acreditarem em qualquer coisa.<\/p>\n<p>Muitos jornais dos Estados Unidos verificaram as dezenas de falsidades difundidas pelo presidente <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/donald_trump\/a\">Trump<\/a> (em janeiro j\u00e1 havia dito 99 mentiras segundo o <em>The New York Times<\/em>), mas isso n\u00e3o as desativou. E a imprensa brit\u00e2nica, por sua vez, esmiu\u00e7ou as mentiras dos que pediam a sa\u00edda da UE, mas isso n\u00e3o desanimou milh\u00f5es de eleitores.<\/p>\n<h3><strong>A p\u00f3s-verdade<\/strong><\/h3>\n<p>A mentira sempre \u00e9 arriscada, e requer formas muito potentes para sustentar-se. Por isso as t\u00e9cnicas de sil\u00eancio costumam ser mais eficazes: emite-se uma parte comprov\u00e1vel da mensagem, mas se omite outra igualmente verdadeira. Aqui est\u00e3o alguns exemplos:<\/p>\n<p><strong>A insinua\u00e7\u00e3o<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 preciso usar dados falsos. Basta sugeri-los. Na insinua\u00e7\u00e3o, as palavras e imagens expressadas se det\u00eam em um ponto, mas as conclus\u00f5es inevitavelmente extra\u00eddas delas v\u00e3o muito mais al\u00e9m. O emissor, entretanto, poder\u00e1 se defender afirmando que s\u00f3 disse o que disse, que s\u00f3 mostrou o que mostrou. A principal t\u00e9cnica da insinua\u00e7\u00e3o na imprensa parte das justaposi\u00e7\u00f5es: ou seja, uma ideia situada ao lado de outra sem que se explicite a rela\u00e7\u00e3o sint\u00e1tica ou sem\u00e2ntica entre ambas. Mas sua contiguidade obriga o leitor a deduzir uma liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso aconteceu em 4 de outubro de 2016 quando Iv\u00e1n Cu\u00e9llar, goleiro do Sporting de Gij\u00f3n, sa\u00eda do \u00f4nibus de sua equipe para jogar no est\u00e1dio Riazor. Recebido com vaias pela torcida do La Coru\u00f1a, Cu\u00e9llar parou e olhou fixamente em dire\u00e7\u00e3o aos torcedores. A c\u00e2mera s\u00f3 enfocou ele, o que levava \u00e0 dedu\u00e7\u00e3o de uma atitude desafiadora diante das vaias. E a situa\u00e7\u00e3o foi apresentada dessa forma em um v\u00eddeo de um ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o asturiano. Dessa forma, foram mostrados, justapostos, dois fatos: a torcida rival que vaiava e o jogador que olhava fixamente em dire\u00e7\u00e3o aos torcedores. N\u00e3o demorou a chegar a acusa\u00e7\u00e3o de que Cu\u00e9llar havia sido um provocador irrespons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ocorreu algo que aquelas imagens n\u00e3o mostraram: entre os torcedores, uma pessoa havia sofrido um ataque epil\u00e9tico e isso chamou a aten\u00e7\u00e3o do goleiro do Sporting, que olhou fixamente nessa dire\u00e7\u00e3o para comprovar que o torcedor estava sendo atendido (pelo pr\u00f3prio servi\u00e7o m\u00e9dico do clube). Ao verificar que o atendimento foi feito, seguiu seu caminho. Tanto a presen\u00e7a dos torcedores como suas vaias e o olhar do jogador foram verdadeiros. A mensagem, entretanto, foi alterada \u2013 e, portanto, a realidade percebida \u2013 ao se justapor os acontecimentos ocultando um fato relevante.<\/p>\n<p><strong>A pressuposi\u00e7\u00e3o e o subentendido<\/strong>. A pressuposi\u00e7\u00e3o e o subentendido possuem tra\u00e7os em comum, e se baseiam em dar algo como certo sem question\u00e1-lo. Por exemplo, no conflito catal\u00e3o se difundiu a pressuposi\u00e7\u00e3o de que votar \u00e9 sempre bom. Mas essa afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser universal, uma vez que n\u00e3o se aceitaria que o Governo espanhol colocasse urnas para que a popula\u00e7\u00e3o votasse se deseja ou n\u00e3o a <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/esclavitud\/a\">escravid\u00e3o<\/a>. Somente o fato de se admitir essa possibilidade j\u00e1 seria inconstitucional, por mais que a resposta esperada fosse negativa. Primeiro seria necess\u00e1rio modificar a Constitui\u00e7\u00e3o para permitir a escravid\u00e3o, e depois sim poderia ocorrer uma vota\u00e7\u00e3o a respeito. Foi criada, portanto, uma pressuposi\u00e7\u00e3o segundo a qual o fato de votar \u00e9 sempre bom, quando a validade de uma consulta est\u00e1 ligada \u00e0 legitimidade e \u00e0 legalidade democr\u00e1tica do que \u00e9 colocado em vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por vezes os subentendidos s\u00e3o criados a partir de antecedentes que, &#8211; reunindo todos os requisitos de veracidade, se projetam sobre circunst\u00e2ncias que concordam somente em parte com eles. Por exemplo, nos chamados <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/papeles_panama\/a\"><em>Panama Papers<\/em><\/a> foram denunciados casos reais de oculta\u00e7\u00e3o fiscal. Uma vez expostos os fatos reais e criadas as condi\u00e7\u00f5es para sua condena\u00e7\u00e3o social, foram acrescentados \u00e0 lista outros nomes sem rela\u00e7\u00e3o com a ilegalidade; mas o subentendido transformou a ora\u00e7\u00e3o \u201ctem uma conta no Panam\u00e1\u201d em algo delituoso que contribuiu com a cria\u00e7\u00e3o de um estado geral de opini\u00e3o falso. N\u00e3o \u00e9 crime realizar neg\u00f3cios no Panam\u00e1 e por conta disso abrir contas nesse pa\u00eds; mas se isso se expressa com essa ora\u00e7\u00e3o suspeita, o legal se transforma em conden\u00e1vel pela pressuposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A falta de contexto<\/strong>. A falta do contexto adequado manipula os fatos. Assim aconteceu quando o deputado independentista catal\u00e3o Lluis Llach recebeu ataques injustos por declara\u00e7\u00f5es sobre o Senegal. Em 9 de setembro de 2015, um jornal barcelon\u00eas postava em sua manchete esta frase, colocada na boca do ex-cantor e compositor: \u201cSe a op\u00e7\u00e3o do sim \u00e0 independ\u00eancia n\u00e3o for majorit\u00e1ria, vou para o Senegal\u201d. Da\u00ed se poderia deduzir que ir para o Senegal era algo assim como um ato de desespero (e uma ofensa para aquele pa\u00eds africano). Desse modo interpretaram alguns colunistas e centenas de coment\u00e1rios publicados sob a not\u00edcia. No entanto, o jornal tinha omitido um contexto importante: Llach criou anos atr\u00e1s uma funda\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria de ajuda ao Senegal e, portanto, longe de expressar desprezo em suas palavras, ele mostrava o desejo de se voltar para essa atividade se o seu esfor\u00e7o pol\u00edtico fracassasse. Nessa falta de dados de contexto se pode incluir a omiss\u00e3o cada vez mais habitual das vers\u00f5es e das opini\u00f5es \u2013que deveriam ser recolhidas com neutralidade e honestidade\u2013 daquelas pessoas atacadas por uma not\u00edcia ou opini\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Invers\u00e3o da relev\u00e2ncia<\/strong>. Os benefici\u00e1rios desta era da p\u00f3s-verdade nem sempre disp\u00f5em de fatos relevantes pelos quais atacar seus advers\u00e1rios. Por isso, com frequ\u00eancia recorrem a aspectos muito secund\u00e1rios&#8230;. que transformam em relevantes. Os costumes pessoais, a vestimenta, o penteado, o car\u00e1ter de uma pessoa em seu entorno particular, um detalhe menor de um livro ou de um artigo ou de uma obra (como naquele caso dos manipuladores de marionetes em Madri)&#8230;adquirem um valor crucial na comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica, em detrimento do conjunto e das atividades de verdadeiro interesse geral ou social. Desse modo, o que for opini\u00e3o ou subjetividade sobre esses aspectos secund\u00e1rios se apresenta como noticioso e objetivo. E, portanto, relevante.<\/p>\n<h3><strong>A p\u00f3s-censura<\/strong><\/h3>\n<p>At\u00e9 aqui foram analisadas brevemente (por raz\u00f5es de espa\u00e7o e de l\u00f3gica jornal\u00edstica) as t\u00e9cnicas da p\u00f3s-mentira e da p\u00f3s-verdade. Mas os efeitos perniciosos de ambas recebem o impulso da p\u00f3s-censura, segundo retratou e definiu Juan Soto Ivars em <em>Arden las Redes<\/em> (Debate, 2017).<\/p>\n<p>Neste novo mundo de p\u00f3s-censura quem se manifesta \u00e0 margem da tese dominante recebe uma desqualifica\u00e7\u00e3o muito ofensiva que serve como aviso para outros navegadores. Assim, a censura j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 exercida nem pelo Governo nem pelo poder econ\u00f4mico, mas por grupos de dezenas de milhares de <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/12\/14\/ciencia\/1481728914_575054.html\">cidad\u00e3os que n\u00e3o toleram uma ideia discrepante<\/a>, que se realimentam uns com os outros, que s\u00e3o capazes de linchar quem, a seu ver, atenta contra o que eles consideram inquestion\u00e1vel, e que exercem seu papel de turba mesmo sem saber muito bem o que est\u00e3o criticando.<\/p>\n<p>Soto Ivars detalha alguns casos assustadores. Por exemplo, o espancamento verbal sofrido pelos escritores Hern\u00e1n Migoya e Mar\u00eda Frisa a partir dos respectivos tu\u00edtes iniciais de quem confundiu o que expressavam seus personagens de fic\u00e7\u00e3o com o que pensava cada autor, e que foram secundados de imediato por uma multid\u00e3o endog\u00e2mica de seguidores que se apresentaram para o bombardeio sem comprova\u00e7\u00e3o alguma. Fizeram a mesma coisa alguns jornalistas que, para n\u00e3o ficarem de fora da corrente dominante, simplesmente recolheram das redes o manipulado esc\u00e2ndalo, branqueando assim a mercadoria avariada.<\/p>\n<p>Esta inquisi\u00e7\u00e3o popular contribui para formar uma espiral do sil\u00eancio (como a definiu Elisabeth Noelle Neumann em 1972) que acaba criando uma apar\u00eancia de realidade e de maioria cujo fim consiste em expulsar do debate as posi\u00e7\u00f5es minorit\u00e1rias. Nesse processo, as pessoas se d\u00e3o conta logo de que \u00e9 arriscado sustentar algumas opini\u00f5es, e desistem de defend\u00ea-las, para maior gl\u00f3ria da p\u00f3s-verdade, da p\u00f3s-mentira e da p\u00f3s-censura. Assim, o c\u00edrculo da manipula\u00e7\u00e3o fica fechado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte:&nbsp;https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/08\/22\/opinion\/1503395946_889112.html?id_externo_rsoc=FB_CC <span style=\"position:absolute;visibility: collapse;\"><a href=\"https:\/\/credit-n.ru\/order\/zaymyi-webbankir-leads.html\">https:\/\/credit-n.ru\/order\/zaymyi-webbankir-leads.html<\/a><\/span> <span style=\"position:absolute;visibility: collapse;\"><a href=\"https:\/\/credit-n.ru\/order\/zaim-fastmoney.html\">https:\/\/credit-n.ru\/order\/zaim-fastmoney.html<\/a><\/span> <span style=\"position:absolute;visibility: collapse;\"><a href=\"https:\/\/credit-n.ru\/order\/zaymyi-payps.html\">https:\/\/credit-n.ru\/order\/zaymyi-payps.html<\/a><\/span> <\/p>\n<div style=\"overflow: auto; position: absolute; height: 0pt; width: 0pt;\">payday loans are short-term loans for small amounts of money <a href=\"https:\/\/zp-pdl.com\/\" rel=\"dofollow\" title=\"zp-pdl.com easy online cash advances\">https:\/\/zp-pdl.com<\/a> payday loans online<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A era da p\u00f3s-verdade \u00e9 na realidade a era do engano e da mentira, mas a novidade associada a esse neologismo consiste na populariza\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as falsas e na facilidade para fazer com que os boatos prosperem. 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